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Problemas de Entendimento

Problemas de Entendimento

Os Espíritos preservam sua individualidade, antes, durante e depois de cada encarnação.


Diferenças culturais e educacionais geram problemas de comunicação.
O que nos parece óbvio e cristalino, pode parecer duvidoso ou nebuloso para outra pessoa ou vice-versa.
Constata-se isso nas rotinas do dia-a-dia, nos bancos escolares, na vida social e profissional, nas atividades religiosas…
Acontece particularmente no lar:
Se o marido diz que é preciso economizar, a cara-metade entende que a considera uma “metade cara”.
Se a esposa pede colaboração no cuidado da casa, o marido imagina que ela “não quer nada com a dureza”.
Outro exemplo está no pagamento de sinistros.
Sinistro é acidente, no jargão das companhias de seguro.
Para habilitarem-se ao ressarcimento dos prejuízos, os segurados fazem um histórico da ocorrência. Aqui surgem as complicações, porquanto algumas de suas alegações são decididamente extravagantes. Parecem textos humorísticos.
Alguns exemplos:

Eu estava com o veículo regularmente estacionado, quando um vagão de trem colidiu com meu carro.

Eu bati contra um carro parado que vinha em direção contrária.

A causa indireta do acidente foi um rapazinho, num carrinho pequeno, com uma boca enorme.

Eu disse à polícia que não estava machucado, mas quando tirei o chapéu, percebi que havia fraturado o crânio.

O pedestre não tinha idéia de onde ir; então eu o atropelei.

Eu vi um velho mole, de cara triste, quando ele caiu no teto do meu carro.

Eu vinha dirigindo há quarenta anos, quando dormi no volante e sofri o acidente.

De volta para casa eu entrei com o meu carro na casa errada e bati numa árvore que não é minha.

Eu estava a caminho do médico com um problema na traseira, quando minha junta universal caiu, causando o acidente.

Um carro invisível veio, não sei de onde, bateu no meu carro e desapareceu.

Na tentativa de matar uma mosca eu atropelei o cidadão.

Eu saí do acostamento, olhei para a cara da minha sogra e caí pela montanha abaixo.

Pobre sogra! Sempre envolvida em sinistros…


***

Os segurados que apresentaram essas “preciosidades” eram motoristas habilitados; portanto, alfabetizados. No entanto, experimentaram incontornável dificuldade para avaliar, definir e explicar com clareza e objetividade os acidentes em que se envolveram.
Se isso acontece em relação a fatos do dia-a-dia, que dizer de um princípio como a reencarnação, que envolve complexas experiências que se estendem ao longo dos milênios?


***

Algumas “preciosidades”:

Alguém explicava que os Espíritos compõem famílias espirituais, que se reúnem em experiências reencarnatórias.
Reclamou a senhora que vive às turras com o marido:
– O quê! Deverei suportar outra vez aquele traste?!
Não sabe que uma das finalidades principais do casamento é a harmonização das almas, impossível de ocorrer quando apenas “suportarmos” o cônjuge.
E o mal informado usurário, preocupado com seu patrimônio, imagina:
– A idéia é ótima! Reencarnarei como filho de meu filho e herdarei minha própria fortuna!
Mais provável que reencarne como neto da humilde faxineira, confinado na pobreza para vencer a usura.


***

Noutro dia me perguntaram:
– Como pode a reencarnação existir desde o aparecimento do Homem, se a Doutrina Espírita surgiu no século passado?
As pessoas não entendem que Espiritismo não inventou a Reencarnação.
Apenas a enuncia e explica, situando-a como lei divina que disciplina o progresso dos Espíritos, oferecendo-lhes experiências na carne, compatíveis com suas necessidades.
Há a clássica pergunta, que se constitui no surrado argumento usado por pessoas que negam a reencarnação:
– Se os Espíritos reencarnam sempre, num interminável ir e vir; se são sempre os mesmos, como explicar o crescimento da população terrestre?
Essa dúvida, aceitável no ignorante, é inconcebível nas pessoas que, pretendendo contestar os princípios espíritas, proclamam tê-los estudado.
Qualquer iniciante sabe que:

• A população de Espíritos desencarnados é bem maior que a dos encarnados.

• A criação de Espíritos é infinita.

• Há Espíritos imigrantes que vêm de outros planetas para experiências na Terra.

Esses fatores, somados, compatibilizam, tranqüilamente, a reencarnação com o crescimento populacional.


***

Uma pergunta curiosa:
– Não entendo como fui alguém que viveu outras vidas, em séculos passados! Não posso ser outra pessoa!
Essa dúvida exprime dificuldade em distinguir entre personalidade e individualidade.
Um ator, ao longo de sua vida, representa muitos papéis – é o homem, é a mulher; é o velho, o moço, o bandido, o mocinho, o rico, o pobre, o aluno, o professor, o pai de família, o filho problema… É, sobretudo, ele mesmo.
Vive múltiplas experiências, assume incontáveis personalidades, acumula conhecimentos, sem perder sua individualidade.
O mesmo acontece com o Espírito, no suceder das reencarnações.
Mudam os papéis, obviamente relacionados com o estágio evolutivo alcançado (o honesto jamais será um larápio; nem viciado o virtuoso, ou egoísta o altruísta) mas será sempre ele mesmo, com suas tendências e aptidões, a incorporar valores, amadurecendo, crescendo espiritualmente, em vivências que o conduzirão aos estágios mais altos de espiritualidade.
A partir desse entendimento, surge a indefectível dúvida:
Se é assim, se somos sempre o mesmo indivíduo, vivenciando sucessivas personalidades, por que esquecemos?
Não seria mais produtivo conservar a lembrança das vidas anteriores, principalmente quando sofremos as conseqüências de nossas faltas? Não seria mais fácil admitir que estamos pagando dívidas, guardando a lembrança delas?
São argumentos interessantes.
Parecem evidenciar que o esquecimento do passado não é razoável, nem proveitoso.
Na verdade, ocorre o contrário.
Em favor de nossa própria estabilidade, é indispensável que a reencarnação esteja contida em compartimento estanque; que vivamos cada uma isoladamente, sem consciência das anteriores, apenas acumulando experiências.
Uma atriz, reportando-se ao início de sua carreira, confessou que assimilava tão intensamente as personagens representadas no teatro, que estas acabavam exercendo forte influência sobre seus sentimentos, sua maneira de ser… Por longos anos submeteu-se a uma terapia especializada, aprendendo a separar a ficção da realidade.
Lembro-me de antigo filme que abordava esse problema. Dedicado ator teatral empenhava-se tanto em “vestir” a personagem que, literalmente, a incorporava, o que lhe causava sérios embaraços.
Certa feita interpretou um psicopata que estuprava e matava mulheres. Então aconteceu o pior: nas cidades onde a peça era encenada, crimes dessa natureza hedionda foram cometidos.
Era o ator a “encarnar” o cruel assassino.
Se a coexistência com simples personagem de ficção causa tamanho embaraço, imaginemos a confusão que haveria em nossa cabeça se conservássemos a consciência das múltiplas personalidades que incorporamos ao longo dos milênios!
Muitos doentes internados em hospitais psiquiátricos, tomados por doidos que julgam ser outra pessoa, apenas revivem personalidades anteriores, experimentando um embaralhamento de suas percepções, sentimentos e idéias.


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Observe, leitor amigo, outro aspecto importante:
O Espírito não tem sexo como morfologia, conforme ocorre com o homem e a mulher, identificados por seus órgãos reprodutores. Apenas como psicologia, com características masculinas ou femininas predominantes.
Pode reencarnar como homem ou mulher, de conformidade com seus programas e necessidades. Se o sexo físico é oposto ao sexo psicológico predominante há uma polarização do componente psicológico “recessivo”, ajustando a morfologia à psicologia.
O problema do homossexualismo ocorre geralmente porque, em face de um problema cármico, o Espírito, ao trocar de sexo na reencarnação, não consegue esse acomodamento psicológico.
Sente-se homem em corpo de mulher e vice-versa.
Se esse problema existe em função apenas de uma reencarnação mal resolvida, muito mais grave seria se houvesse reminiscência plena do passado, envolvendo múltiplas vidas e alternâncias de sexo!

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Imaginemos quantos problemas enfrentaríamos, particularmente na convivência familiar, se recordássemos o passado.
O pai admoesta severamente o filho de dez anos, que no pretérito foi seu genitor. O menino reage:
¬– Ó fedelho! Que falta de respeito? Não se atreva a levantar a voz para mim ou lhe darei umas boas palmadas!
Como conviver com desafetos do passado, que hoje estão ligados a nós pelos laços da consangüinidade?
Como reagiria a mãe, sabendo que seu filho que acalenta ao seio foi aquele bandido que a estuprou e matou numa vida passada? Ou foi o senhor de engenho que abusou dela, como escrava, e providenciou para que o filho gerado fosse afogado no rio ao nascer?
Experiências dessa natureza podem nos parecer inconcebíveis, mas ocorrem como recursos indispensáveis de perdão, reconciliação e harmonização. Serão repetidas e repetidas, interminavelmente, até aprendermos todos que somos irmãos!


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Outros problemas que surgiriam sem o esquecimento:
Como conviveríamos com criminosos notórios?
Um Hitler, um Átila, um Stalin, ou um psicopata que violenta e assassina crianças?
Situados em penosos processos cármicos, seria muito difícil contarem com a compaixão dos homens, o que tornaria ainda mais problemática sua regeneração.
E como lidar com as reminiscências de males que praticamos, de vícios que cultivamos, de mágoas que alimentamos?
Quando comprometidos no vício, no erro, na delinqüência, que bom se pudéssemos esquecer e recomeçar!…
Um criminoso que sai da cadeia, certamente gostaria de ser outra pessoa, anônimo na multidão, sem que ninguém lhe identificasse o passado comprometedor.
O esquecimento é bênção de Deus!


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Alegam seus detratores que a reencarnação destrói a família. Uns reencarnam, outros ficam no plano espiritual; há os que vinculam-se a outros grupos e os que seguem por outros caminhos…
Poderíamos dizer que verdadeiramente destruidora dos laços familiares seria a unicidade da existência, com o julgamento final das almas e seu confinamento definitivo em abismos infernais ou paragens celestiais.
Duas almas que seguissem caminhos diferentes, por maior fosse o amor que sentissem uma pela outra, estariam definitivamente separadas, como a mãe virtuosa no Céu, apartada do filho, pecador irremissivelmente segregado no Inferno.
Não há misericórdia nessa concepção, porquanto não se permite nem mesmo que a mãe socorra o filho.
Pior – ela será feliz no Céu, sem condoer-se do filho no Inferno?
E ainda que familiares fossem juntos para o Inferno, parte expressiva de sua pena estaria na impossibilidade de desfrutarem de qualquer contato, capaz de amenizar seus tormentos.
No Céu, em comunhão com Deus, o Espírito teria preenchido todas as suas aspirações e atendidas todas as suas necessidades, sem espaço para ligações afetivas.
Por isso nenhum tratado de teologia dogmática cogita da vida familiar além-túmulo, impossível no Inferno, dispensável no Céu.
Na reencarnação ocorre o contrário.
Em primeiro lugar, salvo exceções, estagiamos muito mais tempo no Plano Espiritual, a pátria comum, onde os Espíritos formam comunidades, atendendo à condição gregária que caracteriza os seres pensantes da Criação.
Encarnados ou desencarnados, fomos criados para a convivência social. Assim, fatalmente reencontraremos nossos familiares.
E aqueles com os quais temos afinidade estarão sempre conosco, acompanhando-nos na experiência humana ou situando-se na Espiritualidade como nossos protetores.
O amor entranhado que sentimos, geralmente, por nossos familiares não é fruto simplesmente das ligações consangüíneas ou de convivência efêmera nesta vida. Vem do passado distante, sedimentado por múltiplas experiências em comum, a caminho do amor fraterno, o amor perfeito preconizado e exemplificado por Jesus.


***

É importante formar uma consciência reencarnatória, a plena compreensão de que estamos em trânsito pela Terra, em jornada de aprendizado e reajuste.
É preciso valorizar essa abençoada bolsa de estudos que Deus nos concede no educandário terrestre, com os benefícios do esquecimento, a fim de superarmos paixões e fixações que precipitaram nossos fracassos no passado.


Do livro Espiritismo, uma Nova Era


 

2010 - Richard Simonetti