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Reflexão para o Ano Novo

Reflexão para o Ano Novo

Desperta, tu que dormes! Levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará! Andai prudentemente, não como néscios, mas como sábios, usando bem cada oportunidade, porquanto os dias são maus. Não sejais insensatos, mas entendei qual é a vontade do Senhor.

Estas vigorosas afirmativas são do Apóstolo Paulo (Efésios 5:14-17), que despertou para a fé no glorioso encontro com Jesus, às portas de Damasco, tornando-se o grande bandeirante do Evangelho.
Foi o cristão mais acordado de seu tempo. Via nos ensinamentos de Jesus não um simples desdobramento dos princípios judeus, de valor temporal e restrito, mas uma revelação divina que se destinava a todos os povos e todos os tempos.
Suas observações merecem reflexão. Como sabemos há um objetivo para a existência humana. Estamos aqui, fundamentalmente, para evoluir. Cumpre-nos desenvolver as potencialidades criadoras e as virtudes embrionárias que caracterizam nossa filiação divina.
Quem não está consciente disso dorme o sono da indiferença, embalado nos devaneios sugeridos pelos vícios, paixões, interesses e ambições que caracterizam o homem comum, mesmo quando se julgue desperto e muito esperto.
Diz o empresário:
– Estou acordado! Tenho iniciativa! Guardo sob minhas ordens milhares de funcionários, trabalho dezesseis horas por dia, movimento milhões, aumento cada vez mais meus patrimônios!
Diz a jovem imatura:
– Estou acordada! Divirto-me, passeio, namoro, adoro a madrugada, curto a vida!
Diz o viciado em drogas:
– Estou acordado! Sou capaz de viajar para o céu quando queira, ampliando minhas percepções e experimentando a plenitude da euforia!
Diz o homem do mundo
– Estou acordado! Sei defender meus direitos. Jamais permito que me passem para trás. Dou um boi para não entrar em briga, uma boiada para não sair dela. Não levo desaforo para casa.
Pobres tolos! Proclamam-se acordados. São sonâmbulos que falam e ouvem!
Pensam que sabem tudo. Não sabem nada!
Imaginam ter tudo sob controle. Mergulham num oceano de inconseqüências!
Acalentam sonhos ilusórios. Amargo será seu despertar!
Um ano se encerra com seu acervo de experiências, com suas realizações e frustrações, com seus momentos bons e maus…
Um ano se inicia com sua carga de esperanças.
Isso é bom. A esperança é o facho sagrado que aquece o presente e ilumina o futuro. Mas é preciso analisar o que esperamos no novo ano, a saber se estamos cultivando esperanças legítimas ou meras ilusões. Que paremos por instantes e nos perguntemos, lembrando o apóstolo:
– Estou acordado? Tenho consciência do que faço na Terra e do que me compete realizar?
Isso é fundamental. Caso contrário vamos incorrer nos mesmos enganos, cometer os mesmos erros; entrar pelos mesmos desvios, sem perceber por onde andamos e o que nos compete fazer.
Se despertarmos, Cristo nos iluminará – diz Paulo.
Essa é a grande bênção do despertar.
Mas a luz do Cristo é também o grande teste para saber se estamos despertos. Basta confrontar o que somos e o que fazemos com o que Jesus fazia e recomendava.
Perdão, mansuetude, compreensão, tolerância, bondade, caridade, amor, são as luzes do Cristo.
Serão as nossas luzes? Estamos iluminando e aquecendo nossas almas, com esse fogo sagrado?
Diz Paulo:

Andai prudentemente, não como néscios, mas como sábios.

Néscio é um adjetivo forte, pejorativo. Significa ignorante, inepto, insensato, incapaz.
Sábio é aquele que vê além das aparências. É alguém atento à necessidade de aprender sempre. Começa na consciência da própria ignorância. Sócrates, o pai da filosofia, considerado o homem mais sábio de seu tempo, dizia:
– Não sei por que me consideram sábio, porquanto toda a minha sabedoria consiste apenas em saber que não sei nada.
É a partir da reconhecimento de nossas limitações e do empenho por superá-las que começamos a despertar para a vida em plenitude.
É preciso, para isso, aproveitar o tempo, superando o milenário torpor que caracteriza o homem terrestre, buscando nosso crescimento moral, intelectual e espiritual.
Paulo nos recomenda que não percamos as oportunidades, porque, como diz, os dias são maus. Os cristãos, minoria no Império Romano, viviam em permanente expectativa de perseguições religiosas movidas pelos pagãos.
Eram dias difíceis, dias de sofrimentos, mas também dias de gloriosos testemunhos da fé para aqueles homens acordados, conscientes do que queriam, do que lhes competia fazer.
Os que buscam vivenciar em plenitude o Evangelho sempre encontrarão dias maus, já que a Terra é um planeta de expiações e provas, onde as forças das sombras pretendem sustentar domínio, explorando as tendências inferiores da Humanidade.
É preciso, diz Paulo, aproveitar as oportunidades e fazer o melhor, considerando algo fundamental:
Não são aqueles em que enfrentamos o mal os piores dias.
São os dias em que não cultivamos o Bem.

Por isso – recomenda –, não sejais insensatos, mas procurai compreender a vontade de Deus.

Para aquele que está desperto, é fácil saber qual é a vontade de Deus. Está expressa no Evangelho, a Carta do Amor Divino.
Temos nas palavras de Paulo um bom roteiro para nossas reflexões, a saber se estamos despertos e conscientes ou dorminhocos incorrigíveis, repetindo os mesmos enganos de sempre, próprios de sonâmbulos que não sabem o que fazem, nem por onde andam ou o que falam.
Mas também não precisamos solenizar o assunto, tornando-nos fanáticos inconvenientes. O perigo mora aí! O fanatismo nos leva a adotar posturas rígidas e antipáticas, e a criticar o comportamento alheio, cultivando a pretensão de ditar normas e padrões de conduta, como se fôssemos os donos da verdade.
Nesse aspecto, oportuno lembrar a oração de uma madre superiora esclarecida e comunicativa, consciente de suas limitações.
Sua prece é uma obra prima de bom humor e perfeita compreensão do que lhe competia fazer para viver o Evangelho.

Senhor, Vós sabeis melhor do que eu que estou envelhecendo e um dia ficarei velha. Não permitais que eu me torne tagarela e, principalmente, que adquira o hábito fatal de pensar que devo dizer alguma coisa sobre todos assuntos, em todas ocasiões.
Livrai-me de querer, a todo momento, resolver os problemas de toda gente. Conservai minha mente livre da enumeração de intermináveis pormenores: dai-me asas para ir diretamente ao assunto.
Imploro a delicadeza suficiente para ouvir as narrativas dos males alheios. Ajudai-me a suportá-los com paciência.
Mas selai meus lábios quanto a meus próprios achaques e dores. Eles estão aumentando, Senhor, com o peso dos anos.
Ensinai-me a maravilhosa lição de que às vezes pode ser que eu esteja errada.
Conservai-me razoavelmente meiga; não quero ser uma santa – algumas são tão difíceis de suportar! – mas uma velha amargurada, Senhor, é uma das obras-primas do diabo.
Fazei-me ponderada, mas não carrancuda. Prestativa, mas não mandona. Com todas as minhas vastas reservas de sabedoria, será uma pena não usar todas.
Mas Vós sabeis, Senhor, que no fim quero ter alguns amigos.

Livro O Destino em Suas Mãos

2010 - Richard Simonetti