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O Saber e o Fazer

O Saber e o Fazer

O superdesenvolvimento intelectual, aliado à moral subdesenvolvida situam o Homem como pássaro de uma asa só. Ele a agita, tentando alçar vôo, mas apenas gira em torno de si mesmo.
Pensa voar. Afunda-se no chão.
Sem a bússola do discernimento que as faculdades morais sustentam, alheia-se das realidades universais, enveredando por caminhos de ilusão.
Paradoxalmente, quanto mais cresce em Ciência, no propósito de melhorar as condições de vida, maiores seus problemas, tensões e desajustes.
Imaturo, situa-se como indisciplinado aprendiz de feiticeiro incapaz de bem aproveitar e controlar suas próprias conquistas.
Alfred Nobel estuda as propriedades da nitroglicerina e inventa a dinamite, destinada a favorecer as pesquisas geológicas, a abertura de estradas, a construção de pontes... Em breve o explosivo torna-se largamente usado com intenções belicosas, com devastador poder de destruição, que semeia a morte e a desolação.
Alberto Santos Dumont consegue o prodígio de fazer o mais pesado sustentar-se no ar – o avião, a encurtar distâncias, aproximando países e continentes. Logo sua invenção passa a ser usada para despejar bombas sobre populações indefesas.
Brilhantes físicos como Albert Einstein desvendam a intimidade do átomo para uma melhor compreensão dos mecanismos da matéria, com vistas a valiosos avanços científicos. Imediatamente esse conhecimento se materializa no poder devastador da bomba atômica, que ameaça a própria civilização.
Sem o desenvolvimento das faculdades morais todas as conquistas do Homem apenas acentuam sua megalomania, preocupado em desenvolver recursos que favoreçam seu conforto e bem-estar, sem considerar que está desencadeando reações que poderão colocar em risco sua própria sobrevivência.
A poluição atmosférica, a devastação das florestas, os buracos na camada de ozônio, a dizimação de espécies animais e vegetais, são apenas alguns dos problemas gerados pela inconseqüência humana, nos domínios da Natureza.
Isso sem falar no desentendimento geral, nas dificuldades de relacionamento, envolvendo família, comunidade, Estado, nações, povos, continentes, que se acentua cada vez mais, na medida em que indivíduos e coletividades pretendem cultivar autodeterminação sem auto-educação.
Em vários círculos religiosos apregoa-se que o Terceiro Milênio mudará tudo, inaugurando o Reino de Deus, e que em breve haverá o Juízo Final, a separação do joio e do trigo, dos bons e maus, segundo a expressão evangélica. Tudo será diferente. Não haverá mais guerras; A Natureza será respeitada; Imperarão a ordem e a harmonia; Haverá paz nos lares; As coletividades conviverão sem atritos; Será instalado o paraíso terrestre…
È uma bela fantasia, animadora, sem dúvida, mas sem respaldo da boa lógica.
Considerando que a mansuetude é a senha para a civilização cristianizada do Terceiro Milênio, como ensina Jesus, ao proclamar “bem aventurados os mansos, porque herdarão a Terra”, fosse ela exigida agora e seríamos todos despejados do planeta!
Ninguém é promovido a santo do dia para a noite. Muita água rolará no rio do tempo, antes que os poderes que nos governam determinem o expurgo final, envolvendo os que não se adequarem aos valores evangélicos. Isso, diga-se de passagem, se não destruirmos o planeta com nossa belicosidade.
Até lá repetiremos experiências reencarnatórias que desbastam nossas imperfeições, em favor do desenvolvimento de faculdades espirituais que nos permitam enxergar além das humanas limitações, rumo ao Infinito, realizando o Reino em nós para que ele se estenda no Mundo.
Quanto tempo levará? Impossível antecipar. Depende de nosso esforço por deixar os porões da indiferença e da ociosidade em relação aos objetivos da Vida.
Nesse empenho não bastam as possibilidades do saber.
Imperioso cultivar a sabedoria do fazer.
A esse propósito vale lembrar a experiência de um orador espírita.
Eloqüente, culto e didático, comentava os princípios espíritas-cristãos de forma primorosa mas, distraído, não se dava ao trabalho de observá-los. Durante anos, em suas palestras, notava a presença de um senhor de aparência humilde, que o ouvia atentamente.
Quando a morte o reconduziu à pátria espiritual, nosso herói viu-se confinado em lúgubre região, destinada aos que falam muito bem sobre as verdades eternas e cumprem muito mal seus ditames.
Após algum tempo de solidão e sofrimento, foi socorrido por iluminado Espírito que atendia às suas angustiadas orações.
Surpreso, constatou que era seu ouvinte de outrora. Um tanto decepcionado com as Celestes Diretrizes, que colocavam o professor em posição inferior ao aluno, perguntou:
– Amigo, como conseguiu tão elevada posição?
O benfeitor sorriu.
– Simples, meu irmão.…
E, sem afetação:
– Pratiquei o que você ensinava.

 

Livro O Destino em Suas Mãos

2010 - Richard Simonetti