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Pais Identificados

Pais Identificados

A indiscrição de um familiar precipitou o que Lucila e Jonas tanto temiam: Simone tomou conhecimento de que era filha adotiva!
Foi um choque terrível para a menina-moça de dezesseis primaveras. Quis saber se os dois irmãos mais velhos, já casados, também eram adotivos. Ante a resposta negativa, sentiu-se muito infeliz, uma estranha em seu próprio lar.
– Minha filha – dizia-lhe, angustiada, a mãe – alguma vez, porventura, percebeu qualquer diferença de tratamento entre você e seus irmãos? Sentiu que a amamos menos? Eles sempre reclamam que você é o nosso “dodói”…
A jovem não se conformava.
– Vocês me enganaram o tempo todo!
– Talvez eu e seu pai tenhamos errado, mas apenas porque tentamos preservá-la, Simone, evitando o problema que estamos vivendo…
– Bem, agora quero conhecer meus pais…
– Somos nós!
– Meus pais verdadeiros!
– Meu anjo – aduziu Lucila, tomando as mãos da jovem – pais de verdade são aqueles que cuidam e não os que colocam os filhos no Mundo.
– Não importa, quero conhecê-los.
– Impossível, nunca mais tivemos contato.
– Hei de encontrá-los!
Simone estava decida. Amava Jonas e Lucila, mas não lhes perdoava por terem escondido sua condição. Queria seus pais. O casal tentou ajudá-la. Pesquisas foram efetuadas. Tudo infrutífero.
Então a jovem lembrou-se de Catulo, antigo mentor espiritual, muito ligado à família e que vezes inúmeras os tinha socorrido em suas atribulações. Procurou, em sua casa, Francisco Torres, o dedicado médium que servia de intermediário ao nobre Espírito. Com a assistência de sua esposa realizaram singela reunião mediúnica. O benfeitor espiritual manifestou-se, pondo-se à disposição de Simone.
A jovem contou-lhe o que ocorria e pediu-lhe o concurso na identificação dos pais.
– Você já os conhece.
– Como? São pessoas de nossas relações?
– Sim, Jonas e Lucila.
– Esses são meus pais adotivos.
– São seus pais verdadeiros. Como espírita você deve saber que os laços familiares que prevalecem na Espiritualidade são os do coração. O sangue pouco significa.
– Ainda assim, gostaria de conhecer meus pais.
– Minha filha – reiterou o mentor –, insisto que já os conhece. Há muitos séculos todo o seu grupo familiar está ligado por laços de afinidade, ajudando-se mutuamente nos caminhos da evolução. Na presente existência você deveria nascer filha de Lucila e Jonas, como já o foi no pretérito. Ocorre que houve um atraso de sua parte, ao preparar-se para a reencarnação. Quando estava pronta sua mãe já não tinha condições para conceber, em face de delicada cirurgia a que se submeteu. A solução foi trazê-la ao seu lar por vias indiretas, aproveitando o concurso de jovem, envolvida com as ilusões do Mundo, para a qual a gravidez foi o ensejo de superar perigosos desvios de comportamento.
– Então, meus pais biológicos nada tinham a ver comigo?
– Nada! Funcionaram apenas como uma ponte de retorno à carne, com destino certo: Lucila e Jonas!
Pouco depois Simone entrava em seu lar e, emocionada, abraçou com muita ternura seus surpreendidos “pais de verdade”.

***

A adoção de filhos inspira-se, normalmente, em cuidadoso planejamento da Espiritualidade, atendendo às necessidades dos Espíritos em aprendizado na Terra.
Embora os fatores determinantes sejam os mais variados, representando, não raro, uma experiência necessária, tal situação não se constituiria em motivo de sentimentos de frustração ou rejeição, se o filho adotivo compreendesse o essencial:
O cuidado de uma criança é algo de tamanha responsabilidade, envolve tantos sacrifícios e cuidados, trabalhos e preocupações, que jamais alguém se disporia a manter, por toda uma existência, tal compromisso, se não existisse amor. E onde somos amados ali está nossa família legítima.

Livro Atravessando a Rua

2010 - Richard Simonetti