Pingafogo

Não me Segurem!

1 – A agonia do Governador Mário Covas suscita velha questão: a eutanásia. Em casos dessa natureza, envolvendo paciente terminal, há quem julgue razoável abreviar seus padecimentos. O que nos diz o Espiritismo a respeito?
Creio que há uma negação unânime das religiões. Admitir a eutanásia seria transferir para a criatura uma decisão que pertence ao criador. Só Deus, que sustenta o dom de viver, tem o direito de dispor da vida.

2 – E se a decisão for da própria pessoa?
Será muito pior. Decidir a própria morte é cometer suicídio que, como nos esclarece a Doutrina Espírita, provoca um destrambelho perispiritual tão profundo que o infeliz apenas multiplicará seus padecimentos.

3 – Na Holanda há hoje uma legislação que admite a eutanásia. Não seria essa legislação um avanço em favor dos pacientes terminais que, podendo até vir a modificar as concepções religiosas?
Na medida em as coletividades evoluem, a legislação humana tende a assimilar a legislação divina, consubstanciada nos dez mandamentos, de Moisés, onde está o que não devemos fazer (não matar, por exemplo), e nas lições de Jesus, que enfatizam o respeito à vida. Se uma sociedade afasta-se dessa orientação, entra na contramão desse processo, com conseqüências funestas. O legislador que apoiou essa lei, tanto quanto os médicos que lhe dão cumprimento, as famílias que a aprovam e os pacientes que se submetem, terão problemas.

4 – Mesmo que haja um mal irreversível, que o paciente esteja sofrendo muito, não se pode exercitar a misericórdia, abreviando seus padecimentos?
Ninguém sofre injustamente. Os sofrimentos decorrentes de graves moléstias, no fim da existência, costumam funcionar como tratamentos de beleza para o espírito, ajudando-o a ajustar contas com sua própria consciência e preparando-o para uma situação melhor, na vida espiritual.

5 – Há uma tendência atual em se aplicar o que chamaríamos de “eutanásia passiva”. suspender a medicação, aplicar apenas analgésicos, se houver dor, e deixar o paciente partir. O que dizer, sob o ponto de vista espírita?
No século passado a medicina não dispunha da sofisticação atual que permite prolongar por dias e até semanas a existência de um paciente terminal. Assim, não temos o ponto de vista espírita, expresso na codificação. Se eu me visse nessa situação, enfatizaria: por favor, não me segurem! Se a natureza sinaliza que está chegando a hora, se a morte dá sinais de sua presença, num quadro irreversível, que o paciente parta em paz.

6 – Que dizer da ética médica, que determina uma luta sem tréguas contra a morte, até o último alento? E concordaria a família com esse procedimento?
O médico deve conhecer suas limitações e ter o discernimento para saber quando lhe compete parar de lutar contra a morte. Quanto à família, por conta do velho “respeito humano”, poderá sentir-se constrangida em não tentar tudo, mesmo quando não adianta mais nada. Mas deve ser conscientizada de que apenas estará prolongando sua agonia.

7 – Não é bom para o espírito uma agonia prolongada? Não estará se preparando melhor para a vida espiritual?
Entendo que uma doença de longo curso pode ser benéfica, na medida em que o espírito vai se desprendendo dos interesses materiais, das paixões e vícios, voltando-se para a religião. Isso geralmente acontece. A agonia, não, mesmo porque quase sempre decorre de três fatores não naturais: os recursos médicos, as vibrações dos familiares, que não querem a morte e oram para que não ocorra, formando uma “teia magnética de retenção”, e o medo de morrer do paciente.

8 – O medo de morrer atrapalha?
E muito. O paciente se segura, apega-se com todas as sua forças ao corpo, cujas células exaustas estão prestes a se desagregar. É terrível. Podemos ajudá-lo, conversando francamente, dizendo-lhe que chegou a hora, que morte não existe, que há familiares e amigos a esperá-lo, que se entregue sem medo. Tenho feito isso algumas vezes. Depois aplica-se o passe, e faz-se a oração. Costuma funcionar. O paciente se solta e ocorre o desencarne sem mais delongas.

2010 - Richard Simonetti