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Bicentenário de Kardec

1 - No bicentenário do nascimento de Allan Kardec, algumas indagações surgem. Por exemplo: Por que escolheu Paris para cumprir sua missão?
Paris era “a esquina do mundo”, centro mundial de cultura no século dezenove. A chamada Cidade Luz estava aberta à discussão das idéias e rejeitava, desde a Revolução Francesa, a pressão religiosa. Era a cidade ideal para a semeadura dos princípios espíritas.

2 – Como você definiria a missão de Allan Kardec?
Kardec iniciou uma nova era para a Humanidade, a era da fé raciocinada, compromissada com a razão, conforme ele próprio define: Fé inabalável só o é a que pode encarar de frente a razão, em todas as épocas da Humanidade.

3 – O que você destacaria em Kardec?
Sua fulgurante inteligência e lucidez. Entrando em contato com o fenômeno mediúnico, a partir de maio de 1855, já em 18 de abril de 1857, antes que se completassem dois anos de sua iniciação, lançava o Livro dos Espíritos, uma síntese admirável da Filosofia Espírita, que define quem somos, de onde viemos, por que estamos aqui e para onde vamos.

4 – Qual o significado de O Livro dos Médiuns, na obra de Kardec?
Homem de ciência, o Codificador preocupou-se em dar consistência à Doutrina, a partir das pesquisas em torno do fenômeno mediúnico, que permite o intercâmbio com o Além. Entendia, sabiamente, que a certeza da vida futura, com a visão das conseqüências do comportamento humano, é fundamental para que o homem se decida a combater suas mazelas e imperfeições, cumprindo as leis divinas. Para tanto preparou O Livro dos Médiuns, publicado em 1861.

5 – Nota-se na obra de Kardec um profundo respeito por Jesus, que ele considera a figura maior da Humanidade no comentário à questão 625, de O Livro dos Espíritos. Podemos estabelecer uma relação entre Cristianismo e Espiritismo?
Sem dúvida. São duas vertentes da Verdade que se harmonizam. Jesus mostrando a Lei; o Espiritismo demonstrando ser indispensável que a cumpramos. Jesus indicando o caminho; o Espiritismo estimulando-nos a trilhá-lo. Por isso lançou O Evangelho segundo o Espiritismo, em 1864.

6 – Em O Evangelho segundo o Espiritismo, Kardec privilegiou o aspecto moral, sem se preocupar com a exegese. Não é um tanto estranho, considerando sua posição de homem de ciência?
Foi uma sábia decisão. Os detalhes envolvendo a vida de Jesus podem ser objeto de controvérsia; a moral evangélica não. Nela está a essência do Cristianismo e o nosso estímulo maior para uma vida reta e digna, a partir da síntese suprema: fazer ao próximo o bem que gostaríamos nos fosse feito.

7 – Que aspecto da Doutrina Espírita lhe parece o mais importante?
Filosofia, Ciência e Religião se harmonizam, no Espiritismo, como nunca ocorreu ao longo da História. Uma filosofia com bases científicas e conseqüências religiosas é uma dádiva divina, oferecendo-nos uma maravilhosa visão em perspectiva da jornada que nos conduz a gloriosa destinação. Não obstante, na atual conjuntura humana, é preciso privilegiar o aspecto religioso.

8 – Por quê?
Como define o Espírito Fénelon, em O Evangelho segundo o Espiritismo, a grande revolução que o Espiritismo promove é de ordem moral, conscientizando-nos de nossas responsabilidades diante do próximo, com o empenho de superarmos o egoísmo, o elemento gerador de todos os males humanos. Por isso Kardec desfraldou como bandeira da Doutrina Espírita, em consonância com o amai-vos uns aos outros, de Jesus, a máxima Fora da Caridade não há Salvação. São realizações vinculadas à vivência religiosa.

2010 - Richard Simonetti