Pingafogo

Desarmamento

1 – No dia 23 de outubro teremos uma consulta à opinião pública sobre o desarmamento: tirar as armas da população civil. Não é meio complicado, em face do clima de violência que impera nas cidades brasileiras?
Há algo ponderável a considerar: as autoridades policiais, que entendem do assunto, orientam a população a não reagir a assaltos, porquanto o criminoso tem a iniciativa e raramente a vítima leva a melhor. Por outro lado, se considerarmos problemas domésticos relacionados com armas de fogo, como acidentes, assassinatos e suicídios, concluiremos que é melhor não tê-las em casa.

2 – Não obstante, não será um estímulo ao assaltante, saber que não encontrará resistência armada?
O criminoso não cogita do fato de sua possível vítima estar armada ou não, mesmo porque não tem condições para saber. E quando parte para o assalto, está disposto a tudo, até mesmo a enfrentar armas de fogo. Considera-se capaz de neutralizar qualquer reação. É algo semelhante ao que ocorre com a pena de morte. Em nenhum país, onde foi instituída, houve redução da criminalidade, porquanto o criminoso jamais cogita da possibilidade de ser preso ou castigado. Julga-se acima da lei.

3 – Qual seria a postura espírita?
É a postura de Jesus, o Mestre maior: Bem aventurados os pacíficos, porque serão chamados filhos de Deus (Mateus, 5:9), ou Bem aventurados os mansos, porque possuirão a Terra (Mateus, 5:5). Reagir a um assalto usando arma de fogo não é nada compatível com a mansuetude e o pacifismo recomendados por Jesus, atitudes que ele ensinou e exemplificou.

4 – As pessoas que passam pelo tormento e a humilhação de assaltantes entrando em suas casas, submetidas a torturas e vexames, geralmente têm idéia diferente. Se estivessem armadas poderiam se defender e até matar os criminosos.
Mais exato seria dizer que, provavelmente, acabariam todas mortas, com o comprometimento de estarem exercitando o olho por olho da legislação temporal mosaica, superada pelo perdão preconizado por Jesus.

5 – Situar-se desarmado diante do assaltante pode ser uma atitude heróica de Espíritos superiores, mas não é algo complicado para o homem comum, se considerarmos a dificuldade de exercitar uma postura dessa natureza?
Usemos armas diferentes, poderosas, oferecidas por Jesus: Vigiai e orai… (Mateus, 26:41); Sede mansos como as pombas e prudentes como as serpentes (Mateus, 10:16). Traduzindo: peçamos a proteção do Céu e cuidemos de medidas de segurança, preconizadas pelas autoridades policiais com o objetivo de nos resguardar de ações criminosas.

6 – E como fica nessa história o policial, chamado a defender a sociedade e que, eventualmente, num tiroteio venha a matar um bandido? Não estará se comprometendo com a violência?
O policial está no exercício de funções para as quais foi devidamente treinado, justamente para evitar que cada cidadão pretenda fazer justiça pelas próprias mãos, o que nos conduziria à barbárie. Sua tarefa não é executar delinqüentes, mas defender a sociedade. Se de sua ação resulta a morte do criminoso, não estará assumindo responsabilidade, desde que não resvale para a crueldade, conforme esclarece a questão 749, de O Livro dos Espíritos.

7 – Que outras medidas poderíamos tomar para nos defendermos?
No jargão futebolístico costuma-se dizer que a melhor defesa é o ataque. Em defesa de nossa paz, somos todos convidados a atacar a miséria que oprime considerável parcela da população, que vive abaixo da linha da pobreza. É ela, a crescer como bolor na periferia das cidades, que se derrama em ondas de violência e desatino. Quando a classe média e a abastada movimentarem-se em favor da população carente, em iniciativas que transcendam a acanhada ação dos órgãos públicos, eliminaremos grande parcela da violência que nos oprime.

8 – Em resumo, você é a favor do desarmamento?
Sim, mas ressaltando que o ideal seria que essa iniciativa partisse da própria população, sem esperar por medidas governamentais. Que fosse mera conseqüência de um desarmamento moral, a consciência de que o pacifismo preconizado por Jesus é incompatível com posturas inspiradas na velha agressividade humana, como, por exemplo, ter armas de fogo em casa para defender-se de assaltantes.

 

2010 - Richard Simonetti