Pingafogo

Episódio em Goiânia

1 – Chocou a opinião pública o episódio de Goiânia, em que uma menina foi sistematicamente torturada por uma senhora que a acolhera, sob pretexto de educá-la. Igualmente chocante foi a omissão dos familiares, marido, filho, mãe de criação, que conviveram com aquela situação, sem reações indignadas e enérgicas. Não se deram conta do que estava acontecendo?
Talvez reagissem se tomassem conhecimento apenas quando houve a denúncia. Como, ao longo de dois anos, acompanharam a escalada de violência contra a menina, acabaram acostumando-se, num comportamento que Hannah Arendt (1906-1975) situaria como a banalização do mal.

2 – O que isso significa?
Ela presenciou o julgamento de Eichmann (1906-1962), responsável pela chamada Solução Final para o problema judeu, aprovada por Adolf Hitler (1889-1945). Consistiu em criar uma operação de eliminação sistemática dos judeus, que, colocada em prática, contabilizou seis milhões de assassinatos, no maior genocídio da História. Hannah, que teve contatos com Eichmann, constatou, segundo suas próprias palavras, que ele era um burocrata, de comportamento assustadoramente normal, que dizia estar apenas cumprindo ordens. Poderia conviver tranqüilamente em qualquer sociedade. Era o mal exercitado como algo banal, sem inspirar maiores preocupações.

3 – A que atribuía Hannah essa banalização?
Reportava-se à complexidade da natureza humana. Diríamos que não é apenas um problema de complexidade, mas de atraso moral e espiritual do bicho homem. Somos seres imaturos, mais próximos da animalidade do que da angelitude, dominados pelo egoísmo, essa tendência de pensarmos muito em nosso próprio bem-estar, sem nos preocuparmos com males que provocamos ou observamos nos outros.

4 – Sob essa ótica, o episódio, envolvendo a família, seria não apenas de quem exercita o mal, mas também de quem se acostuma a ele, tendendo progressivamente a encará-lo com naturalidade?
Exatamente. Aconteceu com a família algo que ocorreu com grande parcela do povo alemão, que tinha conhecimento do que estava acontecendo no país, envolvendo aquela hedionda matança, mas acostumou-se a ela e a banalizou, sob inspiração do egoísmo.

5 – Analisando assim, poderíamos dizer que essa tendência a banalizar o mal que atinge as pessoas ocorre em muitas situações.
Sem dúvida. Não é natural que considerável parcela da população viva abaixo da linha da pobreza, sem o necessário para uma existência compatível com a dignidade humana; não é natural que tenhamos uma população morando na rua, sem teto, sem agasalho, sem cama, sem os recursos mínimos para atender a necessidades elementares. Não é natural que doentes estagiem em hospitais, solitários e carentes, sem uma visita amiga. No entanto, conseguimos conviver com isso, sem que nos sintamos afetados, ainda que, eventualmente, exercitemos a compaixão. Isso é banalizar o mal que afeta nosso irmão.

6 – A solução estaria em pressionar o governo para as medidas necessárias?
Ajudaria, mas não podemos ficar somente nisso. Se nos dizemos cristãos, lembremos que Jesus em nenhum momento sugeriu que a solidariedade, o sentir a dor do irmão, seria problema do governo. Sempre orientou que devemos nos amar uns aos outros e fazer pelo próximo o que desejaríamos nos fosse feito. Quando essa recomendação do Mestre, que é apenas uma idéia no contexto humano, transformar-se em norma de conduta, estaremos banalizando o Bem.

7 – O que seria isso?
Seria nos habituarmos de tal forma a visitar o enfermo, socorrer o aflito, atender o necessitado, participar de obras filantrópicas, contribuir para serviços sociais, que isso se tornaria em nós uma segunda natureza, uma maneira de ser tão banal quanto o ato de respirar.

8 – Conclui-se que devemos mudar o enfoque existencial, aprendendo a pensar mais nos outros do que em nós mesmos?
É a essência do Evangelho. Em princípio será difícil. Lutaremos com alguma dificuldade para vencer a tendência à inércia, ao acomodamento, ao egocentrismo. Depois acabará se tornando uma segunda natureza, algo tão banal em nós, que nem mesmo nos daremos conta de que, finalmente, seremos cristãos.

 

2010 - Richard Simonetti