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O Matador do Cinema II

01 – O filme Clube da Luta, durante cuja projeção o estudante de medicina Mateus da Costa Meira metralhou várias pessoas, é de extrema violência. Envolve brigas e terrorismo. Esses filmes não exercem uma certa influência, motivando ações criminosas?
Essa questão é debatida atualmente. Principalmente nos EUA, onde tais ocorrências estão se tornando corriqueiras, há psicólogos que vêem nesses filmes uma nefasta indução à agressividade. Concordo. Indivíduos imaturos acabam concebendo a violência como algo normal e até desejável para se auto-afirmar ou resolver seus problemas.

02 – Mas fala-se também que o cinema não induz a determinados comportamentos. Apenas reflete o gosto popular…
Sim, mas é igualmente verdadeiro que o gosto popular tem sido moldado ao longo do tempo por filmes que exaltam a violência. Embora todo artista tenha horror à censura, entendo que a própria sociedade deveria ter órgãos de controle sobre as manifestações artísticas, evitando tornar-se refém de indivíduos habilidosos e competentes, mas extremamente perturbados, que se tornam agentes de espíritos que semeiam a confusão no mundo.

03 – As tendências ao comportamento anti-social e à violência podem ser superadas ou se trata de algo para toda vida?
Podem e devem ser superadas. é para isso que reencarnamos e enfrentamos dificuldades, lutas e dores, essas “lixas grossas” que desbastam nossas imperfeições mais grosseiras.

04 – Mas há indivíduos que parecem não absorver essas lições, regressando ao plano espiritual com as mesmas tendências inferiores e, não raro, com um comprometimento ainda maior diante das leis divinas.
São espíritos imaturos, lerdos no entendimento, apegados a posturas indesejáveis. Todavia, ainda que isso exija o concurso de múltiplas existências, todos acabarão por se enquadrar às leis divinas. As lições serão repetidas tantas vezes quanto necessário, até que aprendamos que somos todos filhos de Deus e nos devemos apoio e respeito mútuo.

05 – Segundo consta, desde a infância Mateus da Costa Meira, revelava-se de difícil relacionamento, introvertido, agressivo, dispersivo. O que podem os pais fazer para atenuar esse quadro?
Não devemos esquecer que na infância o espírito é extremamente sensível às influências que recebe dos adultos. Daí a importância de uma iniciação religiosa, e do empenho em manter-se no lar uma atmosfera espiritualizada, de cultivo da solidariedade, do carinho, do amor. Quando a família cultiva intensamente esses valores, opera prodígios de renovação em favor de espíritos desajustados que reencarnam como seus filhos.

06 – E após a infância, é possível superar esses problemas?
Sem dúvida, mas passa a depender da iniciativa do próprio indivíduo. São importantes a ajuda médica, a orientação psicológica, a iniciação religiosa, as noções de espiritualidade. Há prodígios de renovação quando experimentamos aquele insight, aquele momento em que se faz uma luz em nosso íntimo e reconhecemos que é preciso mudar os rumos de nossa vida.

07 – Costuma-se exaltar a educação como o veículo ideal para renovação da sociedade e eliminação da violência. O fato de um estudante de medicina envolver-se numa situação dessa natureza não põe por terra essa tese?
Podemos situá-lo como uma lamentável exceção, principalmente por envolver alguém que lida com a saúde humana e que teoricamente é preparado para salvar vidas, não para eliminá-las. Isso apenas demonstra o grau de comprometimento desse rapaz com as influências espirituais que o envolviam.

08 – Provavelmente seus advogados consigam consagrar a tese de que ele é um caso psiquiátrico, o que o tornaria inimputável, favorecendo-lhe a liberdade. Está certo?
Não o situaria como inimputável, mas como um jovem extremamente perturbado que precisa de tratamento psiquiátrico prolongado, em regime de confinamento. Seu problema maior, sem dúvida, é de ordem espiritual. A justiça humana terá um grande avanço quando reconhecer os aspectos espirituais desses casos, mobilizando recursos de tratamento espiritual. Neste particular, os postulados espíritas são incomparáveis, com a ampla visão que nos oferece sobre os problemas da alma humana.


2010 - Richard Simonetti