Pingafogo

Balanço existencial

1 - no final do ano as empresas costumam fechar seus balanços, verificando se houve lucro ou prejuízo, aumento ou redução patrimonial. seria possível fazer algo semelhante em relação a nós mesmos?
não apenas possível, mas necessário. deveríamos avaliar se no somatório de nossas ações estivemos menos comprometidos com o vício, a mentira, a desonestidade, a agressividade, tributos pesados que pagamos à inconseqüência. se, por outro lado, cultivamos valores como a caridade, a tolerância, o perdão, a boa vontade, o discernimento, que nos enriquecem espiritualmente.

2 - se o resultado for positivo podemos dizer que o ano foi bem aproveitado, tivemos lucro?
é difícil reduzir essa avaliação a mero confronto entre boas e más ações, porquanto seu valor intrínseco é variável. o antropófago que mata e come seu inimigo não tem o comprometimento de um homem dotado de cultura e discernimento que fizesse o mesmo. por outro lado, a caridade praticada pelo espírita que apenas cumpre um dever, orientado pela razão, é bem menos meritória do que a de alguém que, sem nenhuma noção da doutrina, a exercita por espontâneo impulso do coração.

3 - e quanto ao nosso patrimônio espiritual, como saber se houve crescimento ou redução?
na contabilidade divina não há redução patrimonial. nossas conquistas são inalienáveis. não perdemos o conhecimento adquirido, nem as virtudes conquistadas.

4 - por que, então, as pessoas idosas perdem suas habilidades intelectuais?
perdem apenas a possibilidade de exprimi-las através do corpo, um instrumento de manifestação da inteligência que sofre o desgaste do tempo. é o violinista que não consegue usar adequadamente o violino avariado.

5 - e as pessoas de comportamento pacífico que, de repente, em face de um problema de relacionamento, tornam-se agressivas e violentas, ou o homem virtuoso, chefe de família exemplar, que se envolve em aventura extraconjugal? não houve perda espiritual, configurando uma retrogradação?
houve apenas uma revelação. é fácil conservar a serenidade e a virtude quando as circunstâncias são favoráveis. mostramos o que somos realmente nos momentos difíceis, quando surgem as contrariedades e dissabores ou vêm as tentações.

6 - como ampliar nosso patrimônio espiritual?
ele se desenvolve na medida em que incorporamos valores culturais e morais. qualquer tipo de aprendizado, exercitando a inteligência – uma língua, um instrumento musical, uma ciência, um religião, uma filosofia, nos enriquecem culturalmente. crescemos moralmente na medida em que cultivamos a reflexão em torno dos princípios do evangelho, investindo nas boas ações e no combate sistemático aos nossos vícios e mazelas.

7 - admitindo que seria um exercício para todos os dias, quantas horas diárias deveríamos empregar nesse esforço?
não deveria ser um exercício para algumas horas, um comportamento para determinadas situações, mas uma maneira de ser, um esforço para todos os momentos, um interesse permanente em crescer espiritualmente.

8 - mesmo nas horas de lazer e descanso?
o que fazemos de nossas horas de lazer e descanso nos dá a medida exata dos rumos que imprimimos à nossa vida. há quem considere descanso não fazer nada, ficar de “papo pro ar”, invariavelmente, nos fins de semana. há quem descansa “carregando pedras”, servindo em instituições assistenciais, participando de movimentos religiosos, cultivando o estudo. curiosamente estes estão sempre mais tranqüilos que os amigos do ócio. colhem desde já saudáveis dividendos de seus valiosos investimentos espirituais.


 

2010 - Richard Simonetti