Pingafogo

Jesus e o Espiritismo

1 – Há no meio espírita quem afirme que o Espiritismo não é religião. Há até o ensaio de um movimento laico que pretende eliminar o aspecto religioso da Doutrina. Qual a sua opinião a respeito do assunto?
Creio que, conforme a expressão popular, “o buraco é mais embaixo”. A idéia é tirar Jesus do Espiritismo ou pelo menos reduzi-lo a mera figura de segundo escalão no ideário espírita, iniciativa infeliz que esbarra na firme convicção do próprio Kardec, que o reconhece a figura mais importante da Humanidade.

2 – O que disseram os mentores que colaboraram com Kardec, na codificação da Doutrina?
Extrapolaria os limites deste pinga-fogo o registro de todas as homenagens prestadas a Jesus, nas obras da Codificação. É suficiente lembrar que, à questão 625, de O Livro dos Espíritos, quanto ao modelo supremo que Deus ofereceu ao homem para lhe servir de guia e modelo, o mentor espiritual respondeu simplesmente: Jesus. Kardec comenta que, sendo Jesus o mais puro Espírito que passou pela Terra, o próprio Criador o inspirava. Era médium de Deus. E há, ainda, O Evangelho Segundo o Espiritismo, um maravilhoso hino de louvor ao Mestre dos Mestres, a exaltar a sublimidade de seus ensinamentos.

3 – Há quem diga que Kardec escreveu essa obra para apaziguar os teólogos, tentando uma aproximação com a Igreja.
Semelhante raciocínio é um desrespeito a Kardec, ao seu caráter ilibado, à firmeza de suas convicções. Sua ação foi a do garimpeiro que, com rara sabedoria, soube destacar as mais preciosas gemas da moral evangélica, separando-as das fantasias teológicas e estabelecendo uma perfeita conexão com a Doutrina Espírita. Qualquer estudioso isento percebe isso. Não creio que os teólogos ortodoxos tenham ficado satisfeitos.

4 – Essa conexão não fica prejudicada quando observamos a racionalidade em que se expressa a Doutrina Espírita, à distancia da singeleza da mensagem cristã, vazada em parábolas e aforismos?
A verdade é uma conquista paulatina, condicionada à maturidade humana. Jesus dirigia-se a uma humanidade adolescente, incapaz dos grandes vôos do raciocínio. O Espiritismo o faz a uma humanidade mais evoluída mentalmente, capaz de entender os mecanismos de funcionamento das leis divinas. Jesus falava ao coração, o Espiritismo fala à razão. Ambos se completam.

5 – Dando esse destaque a Jesus, não corremos o risco de nos envolvermos com um novo culto exterior, distraindo-nos do empenho de renovação preconizado pela Doutrina Espírita?
Isso tem acontecido na periferia do movimento, envolvendo dirigentes mal orientados, tendo em vista a heterogeneidade cultural que vigora nos arraiais espíritas, independente da presença de Jesus na Doutrina. Compete aos órgãos de Unificação minimizar essas distorções e, tanto quanto possível, eliminá-las.

6 – Mas, afinal, o Espiritismo é ou não é uma religião?
O próprio Kardec explica no discurso pronunciado na célebre viagem, em 1862, que se trata de uma questão de semântica. Se admitirmos religião como sinônimo de culto exterior, rito e reza, ofício e oficiantes, a resposta é negativa. Se considerarmos o sentido mais amplo e nobre da palavra, como um caminhar para Deus, obviamente o Espiritismo é uma religião, ou melhor, é a própria essência da religião.

7 – Seria o terceiro elemento do tripé espírita?
Sem dúvida. O Espiritismo é uma filosofia de bases científicas e conseqüências religiosas. Consubstancia o mais significativo e claro apelo feito pelo Criador, em favor de nossa realização como seus filhos, tendo por orientação suprema a moral evangélica.

8 – O que dizem os pensadores espíritas da atualidade a respeito do assunto?
Escritores e médiuns espíritas de destaque, no presente e no passado, como Herculano Pires, Deolindo Amorim, Carlos Imbassahy, Hermínio Miranda, Chico Xavier, Divaldo Pereira Franco, Raul Teixeira, Cairbar Schutel, Eurípedes Barsanulfo, Guillon Ribeiro, Bezerra de Menezes e muitos outros, reconhecem, unanimemente, o caráter religioso do Espiritismo. Não conheço, dentre os que o negam, ninguém que se ombreie com esses companheiros. Isso me parece extremamente significativo.


 

2010 - Richard Simonetti