Pingafogo

Tsunami

1 – O final de 2004 foi marcado pela tragédia na Ásia, o tsunami, a onda gigantesca que dizimou perto de cento e cinqüenta mil pessoas. Poderíamos falar em carma coletivo?
Até por uma questão de logística, seria altamente complicado reunir tanta gente num único local, no momento preciso em que aconteceu a tragédia. Em O Livro dos Espíritos, na questão 737, os mentores que respondem a Allan Kardec situam tais ocorrências como flagelos destruidores, que têm por objetivo fazer a Humanidade avançar mais depressa.

2 – Então não podemos dizer que aquelas pessoas estavam destinadas a morrer daquela forma, naquele momento?
A idéia de que existe dia certo para morrer é uma fantasia. Gente que maltrata o corpo com o sedentarismo, os vícios, a glutoneria, os tormentos da paixão, a irritação, a visão pessimista da existência, e muitos outros desvios, abrevia a existência. Por outro lado, acidentes, males súbitos, fenômenos naturais, como o maremoto que assolou a Ásia, promovem mortes que não estavam escritas nas estrelas.

3 – De qualquer forma acontecimentos dessa natureza geram sofrimentos para os que partem e para os que ficam. Se não se trata de um carma, como fica a justiça?
Uma mulher que dá à luz sofre horrivelmente as dores do parto. Fala-se que não há dor física que se compare. Depois vem a emoção incomparável de acolher o filho em seus braços. A dor faz parte do mundo em que vivemos, instrumento de evolução, antes de ser instrumento de resgate. As grandes dores resultam em grandes progressos, como se a vida sacudisse as coletividades, em favor de estágios mais altos. No rescaldo da tragédia asiática fica o maravilhoso movimento de solidariedade que envolveu a população mundial, sensibilizando milhões de pessoas. É um abençoado exercício de compaixão em favor da saúde espiritual da humanidade.

4 – O que preocupa, nessas situações, é ver gente de bem e crianças, pessoas que nunca se envolveram com o mal, perecerem estupidamente. Não deveriam ser poupados?
Isso só teria cabimento se a morte fosse um castigo divino quando, na verdade, é uma libertação. A vida em plenitude está no mundo espiritual. Morrer é livrar-se dos grilhões da matéria. Além do mais, o que é uma existência senão minúscula gota d’água no oceano da eternidade?

5 – Naquela tragédia houve pessoas que foram milagrosamente salvas, até crianças indefesas. Podemos dizer que nesses casos houve uma interferência divina?
Raciocínios dessa natureza só produzem revolta naqueles que tiveram familiares mortos. Por que Deus teria protegido a alguns, enquanto outros pereceram? Por que esse favorecimento? Onde estaria a bondade divina?

06 – Como ficam, na Espiritualidade, aqueles que perecem em tragédias assim?
A situação do Espírito, após o desencarne, não depende de como partiu da vida física, mas de como chegou ao mundo espiritual. Uma pessoa que morra em acidente pode recuperar-se rapidamente, se viveu de forma espiritualizada, cultivando idéias em torno do Bem e da Verdade, enquanto outra, que teve uma doença de longo curso, pode enfrentar problemas, se não cultivou existência virtuosa.

7 – Há uma assistência do plano espiritual aos desencarnados naquela situação?
Sem dúvida. Assim como acontece na vida física, há uma ampla mobilização de benfeitores espirituais, procurando atender os desencarnados, embora a readaptação destes à vida espiritual vá depender não tanto da assistência que recebam, mas muito mais de seus patrimônios morais e espirituais, e da maneira como vão reagir à nova situação.

8 – Numa Humanidade mais evoluída não haverá flagelos destruidores?
O que chamamos de flagelos destruidores são fenômenos naturais, que ocorrem na Terra desde os seus primórdios, há bilhões de anos, e continuarão a ocorrer nos bilhões de anos que se desdobrarão até que o nosso planeta desapareça. Com o aperfeiçoamento moral e intelectual da humanidade saberemos lidar melhor com eles.


 

2010 - Richard Simonetti